Manuais de Instruções
O que mais tem me chamado a atenção é quantidade de manuais que podemos encontrar para tudo nesta vida. Parece que todos têm uma receita infalível, ou. no mínimo, com grandes chances de, se seguida, obter algum sucesso ou resultado interessante.
Nem discuto que isto seja inverídico, mas o que coloco em xeque é a comercialização do potencial da receita. Sim, pois se eu posso oferecer (e ofereço, como todo mundo) algo que vai "mudar" a vida de outro sujeito, por que não devo fazê-lo? É regra no mundo dos negócios, nesse capitalismo no qual é preciso gerar produção e receita, de maneira que, se fosse em outro painel, talvez eu pudesse ser contrário ao modelo que rege as nossas vidas aqui na terra.
O problema é que em um mundo globalizado economicamente como o que estamos vivendo, tudo passa a ser produto de algum modo. Ou chamariz para outro que pode ser sacado do bolso feito um celular!
Não sei se é possível viver desse modo por muito tempo. Digo não individualmente, mas, coletivamente. Será que isto não se esgotou ou está preste a esgotar? Será preciso vender de tudo um pouco ou muito ad infinitum?
É provável que os números me desmintam sem qualquer esforço, afinal de contas, os produtos estão aí pululando nas prateleiras físicas e digitais, e uma enorme boca de consumo continua aberta e pronta a devorar o que julgar interessante.
Talvez aqui resida um porém: qualidade. As pessoas consomem aquilo que escolhem consumir, de acordo com seu julgamento e... bolso. Quem possui maior poder de fogo, escolhe e paga o preço; do contrário, consumimos de toda a maneira, mas nem sempre operando por escolhas tão qualitativas.
Tenho me esforçado para entender economia ao longo dos anos, e continuo tentando apenas. Mas isso não significa que seja um consumista inveterado, já fui mais, hoje me contento com pouco, um minimalista talvez sei lá. Mas se tivesse muito, não o seria, eu sei, tenho essa certeza, pois minha humanidade envolve paixões como qualquer outro homem. É assim a vida, a nossa natureza, por isso não é possível crer que os manuais que podem "mudar sua vida" tenham esse poder de penetrar na essência de nossa alma animal, pois, esta, para dizer francamente, só é sublimada através da reflexão profunda (e como melhor disse James Grotstein, psicanalista e teórico) usando do fator da intersubjetividade, ou seja, neste caso é preciso ter capacidade para autoanálise como se o outro fosse você visto por você, algo assim.
Não sei aonde vamos parar. A produção humana é gigantesca hoje, e temos de tudo em todo o lugar, seja no mundo físico seja no mundo virtual. Estamos caminhando para tornar o planeta uma bomba-relógio, só que não sabemos quando irá explodir (ou se falhará miseravelmente). Tudo é possível no reino das possibilidades, embora a lógica real aponte para uma sonora e letal explosão.
Apocalítico eu sou? Não, mas o produto social nos torna assim. Somos bombardeados de todos os modos, e a realidade parece marcar com ferro quente cada um de nós, meros mortais.
Queria poder vender algo que gerasse uma energia diferente. Talvez fosse possível implementar uma vontade de replicar uma necessidade de transformação de paradigma, mas essa palavra ficou tão mal usada que hoje nem sinto vontade de usá-la.
Mas precisamos fazer alguma coisa. Precisamos fazer do consumo um trampolim para conhecer outros valores da vida. Dessa forma, cresceremos de forma sustentável, mas não só do ponto de vista de um manual de economia digamos ambientalista (isso é urgente sem dúvida), mas também de um ponto de vista iniciado dentro de nós, de nossa subjetividade. Isto é possível e não é "de comer". Ah, e antes de terminar, quero dizer que sou a favor manuais e tutoriais. Os que não estão á venda!


